O
polimetilmetacrilato, substância utilizada em técnicas
sem cortes de preenchimento estético popularmente conhecidas
como bioplastias, pode ser absorvida pelas células e provocar
inflamações ou mudar de lugar no organismo, gerando
deformidade e até mutilação. A constatação
é de um estudo feito pelo cirurgião plástico
e membro da Academia Nacional de Medicina Cláudio Cardoso de
Castro.
O resultado do trabalho do médico reacendeu a polêmica
em torno do uso estético dessa substância injetável,
originalmente empregada na fabricação de próteses
ortopédicas e ortodônticos. Há alguns anos, o
produto, chamado de PMMA, vem sendo adotado em técnicas de
modelagem do corpo feitas em consultórios, clínicas
de estética e até salões de beleza. Sua utilização
é autorizada pela ANVISA (agência nacional de vigilância
sanitária) para corrigir problemas estéticos no nariz,
queixo, orelhas e contorno facial.
A idéia da pesquisa surgiu por causa do número de pacientes
que chegavam com complicações causadas pelo uso de PMMA
ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde Castro dá
aula. Com uma bolsa da Faperj (Fundação de Amparo a
Pesquisa do Rio de Janeiro), o cirurgião reuniu 21 pacientes
com imperfeições estéticas nas orelhas e que
concordaram em ter a substância injetada nos lóbulos.
“Essa característica facilitou a retirada do material
para análise posterior”. Seis meses depois, a substância
foi retirada e levada para estudo.
A análise constatou que em todos os casos houve absorção
do PMMA pelo organismo. Além disso, 20 tiveram infiltração
e houve formação de nódulos em 19 deles. “A
absorção pelos tecidos demonstra que o preenchimento
não é permanente e que há migração”,
disse Castro, para ele, o que acontece com PMMA é equivalente
ao silicone líquido.
“Os fabricantes dizem que as complicações são
decorrentes da má colocação, mas o que a pesquisa
constatou é que os problemas são da própria substância”,
afirmou.
O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica,
José Yoshikazu Tariki, recomenda que a substância seja
utilizada apenas para pequenos procedimentos de até 2 ou 3
milímetros em regiões da face. Em alguns casos, o PMMA
é injetado em doses de até 400 mililitros, como nas
nádegas. “É trabalho para médicos. Não
deveria ser utilizado com fins estéticos. Deve ser feito com
muita cautela e com um profissional reconhecido”, alertaTariki,
acrescentando que existem algumas áreas do corpo onde há
mais complicações, como perto do nariz e nos lábios.
O médico e integrante da Câmara Técnica de Cirurgia
Plástica do Conselho federal de Medicina (CFM), Carlos Alberto
Jaimovich, chama de “epidemia” o uso de polimetilmetacrilato
(PMMA) em procedimentos estéticos. “O PMMA se tornou
uma verdadeira epidemia que tem sido aplicada de maneira indiscriminada.”.
Segundo ele, “o resultado imediato, na maioria das vezes, é
fascinante, mas em um percentual pequeno o resultado inicial não
tem solução”. “O que estamos vendo agora
é que ao longo do tempo observamos o endurecimento da região,
migraçãoe processo inflamatório cíclico
incurável”. Diz o médico
O problema é que após o uso, as moléculas de
PMMA formam pequenas gotículas que são absorvidas pelo
tecido. É o que garante o carácter permanente, embora
estudos recentes mostram que pode haver migração para
outros locais do corpo.